SMS Cafeano




"Todo o silêncio é música em estado de gravidez"

Mia Couto - escritor moçambicano


Crónica Desaforada





Os Equívocos da Critica

1. Queixamo-nos muitas vezes da falta que faz a Cabo Verde o que designamos de “espírito crítico”, que pode ser definido, grosso modo, como a capacidade – ou a coragem – para fazer determinada análise sustentada, que seja suficientemente elaborada, de forma a conseguir ser acompanhada ou não de um determinado juízo de valor, que pode ser positivo ou negativo. No campo artístico o vazio absoluto deixado pela falta de uma corrente crítica que pudesse ser uma espécie de barómetro da criação artística nacional nas suas diversas vertentes, é ainda mais patente. A verdade dos factos aqui é uma e apenas uma: não há uma tradição crítica no país, seja no campo político, social ou, principalmente, na área artística, e isto considerando qualquer uma das suas componentes (literatura, teatro, música, dança, artes plásticas ou multimédia). O primeiro grande equívoco da Critica (que inexiste) é precisamente pensar-se que ela tem terreno para germinar no nosso país e que só não está mais presente por alguma razão misteriosa que ninguém no seu perfeito juízo é capaz de revelar ao comum dos mortais.

2. A razão de ser, ou a principal razão de ser, se quisermos, será o facto de sermos um país de primos e enteados, onde toda a gente se conhece e onde não nos é permitido ter um distanciamento pessoal entre quem pretende criticar algum objecto artístico e o autor dessa mesma criação. E mesmo no caso de haver esse distanciamento, continuamos com uma mentalidade que produz um pensamento retrógrado e preconceituoso que considera que quem tem a capacidade de pensar pela sua própria cabeça construindo um discurso coerente e minimamente amparado é, antes e acima de tudo, um atrevido arrogante que tem a mania que é mais esperto que tud gent. Cá está o segundo grande equívoco da Crítica cabo-verdiana (que é uma ilusão): quem escreve alguma crítica fá-lo porque tem “manias” de superioridade.

3. Aqui chegados vamos para um dos pontos mais consensuais desta problemática no país e que resume o terceiro grande equívoco da Crítica crioula (um vazio ansiando por ser preenchido): quem escreve algum tipo de análise critica – principalmente no campo artístico – é porque tem alguma motivação escusa, tão pessoal e intransmissível quanto o seu DNA, que não passa, nem de perto nem de longe, pela análise do objecto artístico em causa, mas sim por alguma não assumida motivação de índole umbiguista. Ou seja, e por outras palavras, quem critica fazendo uma avaliação negativa do objecto artístico analisado é porque é um tipo ressabiado cheio de invejas e que está em pleno processo de vingança implacável; e se a avaliação é positiva, então na melhor das hipóteses, é porque é na certa compadre, primo, amigo do namorado, o pai do artista é vizinho da mãe do crítico, sendo mais do que certo que haverá alguma razão que possa justificar a redacção de um texto elogioso daqueles, porque ninguém dá nada a ninguém se não houver compadrios ou algum favor a pagar em troca, do passado, presente ou do futuro, considerando os juros de mora e outras regalias anteriormente negociadas.

4. E daqui se identifica o quarto grande equívoco da Crítica cabo-verdiana (que nunca nasceu, até ver), aqui mais de natureza etimológica do que social: aquela ideia peregrina de que “criticar” significa, em poucas palavras e em linguagem mais popular, “falar ou dizer mal de”. Por isso o termo muito em voga de “crítica construtiva”, que só passa incólume pelo desconhecimento do real significado do termo. Nada mais errado e agora aproveito esta oportunidade que ninguém me pode ver a consultar o Google ou o Wikipédia, para informar que a palavra “crítica” é originária do grego e da palavra “krimein” que significa “quebrar”, tendo de igual forma influenciado a formação da palavra “crise” (o que é uma perspectiva interessante). Diz jornalista Arthur Nestrovski que “a ideia da crítica é quebrar uma obra em pedaços para se por em crise a ideia que antes se fazia daquele objecto, através de uma análise,” Para tanto, defende, é necessário entender as partes do objecto que será analisado para justamente descrevê-lo e, a partir daí, fazer uma interpretação, ou uma releitura se quisermos, de acordo com o contexto em que se encaixa o artista, o seu percurso, a sua obra e o âmbito concreto da sua apresentação ao público.

5. Daqui se arranca a grande velocidade para o quinto grande equívoco da Crítica cabo-verdiana (uma espécie de buraco negro): que criticar é dar uma “opinião”, mesmo que consideremos que ela possa ser positiva ou negativa. Até em países muito mais evoluídos neste âmbito, com tradição de décadas de publicação de críticas nos mais diversos domínios, esta é uma realidade patente: a maior parte dos textos publicados acabam por ser meramente opinativos, uns mais bem sustentados do que outros. Além de que, em certos países, a critica tem um poder não negligenciável no sucesso ou fracasso de um espectáculo, pelo que os critérios de escolha sobre quem escreve, o que se escreve e onde isso é publicado, acaba por ser muito mais redigido por critérios comerciais do que propriamente artísticos. Quer dizer, o crítico pode dar a sua opinião, mas não é este o principal objectivo deste género de intervenção. Aquele passa, em primeiro lugar, por diversas vertentes a considerar: a crítica tem uma função informativa, pedagógica, reflexiva, testemunhal e dialogante, fazendo uma ponte entre a obra de arte e o seu público. Muito mais do que uma opinião, portanto.

6. Chegados a este ponto é fácil entender porque é que em Cabo Verde a tradição crítica nunca foi alimentada, nunca encontrou terreno para germinar e muito menos foi feito algum esforço para que a esta tivesse sido dada alguma oportunidade para sequer existir. Porque para criticar é preciso preparo. E a diversos níveis. E não há aqui qualquer arrogância, é claro como água: a crítica escrita relativa a uma obra de arte – seja um livro, um disco, uma peça de teatro, um concerto ou uma exposição – é um género literário e como tal só quem sabe escrever e tem um completo domínio da língua se pode dar ao luxo de arriscar numa empreitada como esta. Depois porque criticar uma obra de arte exige estudo e conhecimento: sobre a Arte e a sua história, no sentido mais lato, e sobre o artista, o tipo de estética com o qual este pode ser identificado, o seu currículo e o entendimento do seu percurso, para além de uma análise descritiva do próprio objecto de arte em causa, o que exige um domínio do vocabulário próprio do tipo de expressão artística que se está a analisar.

7. Pois é, criticar não é para qualquer um. Um aborrecimento, em suma. Dá trabalho, muito trabalho. Além de que, quem escreve uma crítica está a escrever algo que vai ser lido, ou seja, tem um alvo, um destinatário muito claro: o público a quem a obra de arte se destina à partida, seja o previsto inicialmente, o potencial ou aquele que resolve comprar o livro, o disco ou o bilhete da peça, porque leu um texto sobre a obra que lhe incutiu o desejo de fazer, em si mesmo, o investimento de aquisição e/ou de fruição da obra de arte. Quer isto dizer, como muito bem sustentou Luiz Camilo Osório, na sua obra “As Razões da Crítica”, “a crítica é escrita para o público, mas está ao serviço da arte.“ Há pouco abrimos um pouco este véu, quando dissemos que a crítica implica uma quase desfragmentação que obrigará, necessariamente, a uma reflexão, não apenas do público, mas também do próprio artista, quando confrontado com um olhar de fora imbuído de isenção, equilíbrio e conhecimento – os três principais requisitos para a escrita de uma boa crítica de arte.

8. O espírito crítico implica, portanto, que haja capacidade de registo, de transmissão de conhecimentos, de análise que estimule o público e o artista a uma reacção. A crítica é activa, nunca é passiva. Provoca a “crise” e só se responde a uma crise com energia, inteligência e capacidade para encontrar outros caminhos ou respostas outras que sustentem o percurso que se fez naquele preciso momento. Sem clichés, preconceitos ou arreigados nos hábitos que epidermicamente a televisão e a sociedade de consumo liberal e capitalista vai impregnando à maioria da população mundial, que está cada vez mais se comportando como um rebanho de robôs que segue para o mesmo caminho da maioria, tal como acontece por aqui quando toda a gente vai para o mesmo bar, só porque “está na moda.” Mas isso já é outra conversa, a das modas, que dará, certamente, para uma futura conversa de café.

9. Daqui se entende, por fim, porque nunca tivemos (e dificilmente teremos) no arquipélago num futuro próximo não apenas um espírito crítico aguçado e pronto para servir o desenvolvimento do todo social e cultural, como pessoas preparadas e com vontade de cumprir essa função de escrever e dar a cara por uma actividade que tem tanto de espírito de missão como de pedras no caminho. Por isso o crítico tem que ter uma paixão e um amor pelo seu objecto de estudo, assim como ter a inteligência de, como escreveu Fernando Pessoa, construir o seu castelo com as pedras que for encontrando ao longo do seu trajecto.

Crato (Ceará), 20 de Novembro de 2009


Sonata de Outono





Akira Kurosawa, o realizador japonês, disse: "um homem é um génio quando está sonhando." Eu, quando sonho com um jantar a dois (sou modesto, não vou mais longe nos meus devaneios) com Scarlett (por exemplo), onde no final ela canta só para mim, enquanto come uns morangos com chantilly (fazendo lembrar a não menos bela Nastassja Kinski, no filme Tess, naquela que é a mais sensual mordidura de morango da história do cinema), o clássico Sumerttime, tenho uma tendência bem idiota de me auto-considerar um génio. Manias...





Três Cafés na Net



Três bons novos locais, que valem um anúncio e um post próprio:


1. O novo espaço do músico cabo-verdiano Hernani Almeida. Bem feito, limpo, prático e que nos dá ainda a possibilidade de ouvir um pouco da música do seu último (e até agora único) trabalho discográfico. Vale a pena uma visita, aqui.




2. O espaço do artista plástico cabo-verdiano Alex da Silva também tem um espaço próprio na Internet. Como é habitual nele, está muito bem produzido, com um excelente design e dá-nos a possibilidade de conhecer algumas das suas obras. A visitar também, aqui.




3. E por falar em Alex da Silva, a bela galeria café que ele abriu recentemente no Mindelo, a Zero Point Art, e que vale bem uma visita - é lá, por exemplo, que se encontra a última exposição de Manuel Figueira - tem também o seu espaço de divulgação online, aqui.





Foi tudo culpa do amor





"Foi tudo culpa do amor", noticia o jornal que relata esta história fascinante (e verídica). Boatos correm como vento trazido pela marezia por um dos bairros de Fortaleza, porque alguém anda a escrever declarações de amor no asfalto de uma das mais movimentadas avenidas da cidade. Sem conversa, sem explicação, um homem (dizem) pintou o asfalto, reverenciando o amor que sente por outro alguém: "te amo", "te quero", "te desejo". Quem? Não se sabe.

Perguntas não faltam. Será um pedido de desculpas? Uma despedida? Um namoro ainda no início? Será um homem ou uma mulher? Ninguém sabe quem é o misterioso personagem e cada um tem uma versão para a história. "Não é coisa de gente daqui. Aqui só tem velho", comentou uma das moradoras, como se amor tivesse idade. Outros confessam nem se importar, só de saber que o amor move alguém ao ponto de deixar marcadas declarações de amor no tórrido asfalto urbano, que importa isso?

Lembro-me agora de uma dessas frases que vi escrita num muro de pedra na berma da estrada no caminho para a baía das gatas, em S. Vicente, que dizia "tenho a melhor namorada do mundo". Depois alguém se lembrou de apagar aquilo e o caminho ficou mais triste. A verdade é que gosto muito destes anúncios públicos e desaforados de vultos apaixonados. Mesmo que sejam fantasmas e pouco verossímeis, o importante é que continuem a existir.


Ver notícia completa: aqui



Mensagem Mural


Convém não esquecer que...




Somos todos tão frágeis, tão assustadoramente frágeis!



Declaração Cafeana




Sempre defendi que uma das funções das artes em geral, e do teatro em particular, é convidar à reflexão, num mundo onde cada vez se tem menos tempo para se pensar no que está acontecendo à nossa volta. Ontem vi um desses espectáculos que nos faz pensar. A companhia brasileira do Rio de Janeiro, Pedras Teatro, na peça Mangiare apresenta o tema da comida como prato principal. O público é convidado a se sentar em três grandes mesas com capacidade total de 70 pessoas. De entrada uma salada oriental é preparada e servida ao público por uma mãe e duas filhas com os seus conflitos e intimidades. O prato principal é feito por divertidas máscaras balinesas que sonham com a fortuna ao preparar um nhoque de inhame. Histórias e segredos culinários são confidenciados ao público por personagens que se sentam à mesa e o tema da compulsão é abordado com música, tragédia e humor. No final as sobremesas são oferecidas numa brincadeira de tentação e desejo. A música ao vivo que alimenta todo o espectáculo contribui para uma autêntica farra gastronómica. Pormenor importante, o público come as receitas que vão sendo "preparadas" pelas três actrizes, tudo acompanhado de um fresco e leve vinho branco. E que boa que é a comida!

Mas isso é secundário, embora não pareça. A sensação que se sai do espectáculo - muito original - é a noção do muito que perdemos todos os dias pelo facto de não nos permitirmos o tempo e a condição de comer à volta de uma mesa com as pessoas de quem mais gostamos. Mesmo na maioria das casas de família (quando as há), as pessoas comem à frente da televisão ou nunca tem horários coincidentes de emprego e escola que lhes permite comer juntas. Se comem na mesa já não conversam umas com as outras ou porque uma espécie de guerra fria já se instalou no lar ou simplesmente porque não há tempo para isso. A festa e a confraternização da refeição é revisitada uma vez por ano, por altura do Natal, e já é uma sorte. Já ninguém se senta para saborear um bom prato de comida, um bom vinho e um bom doce acompanhado, com tempo e disponibilidade, muito menos se tiver na sua própria casa. Não há tempo a perder, não é?

Meia culpa, meia culpa. Esta peça foi uma lição do que já sabia mas que de quando em quando parece que também eu esqueço: que a refeição é, tal como uma peça de teatro, um acto carregado de simbolismo e religiosidade, que uma vez respeitado torna o acto de comer numa acção amorosa e humanista. E toda a parcela de humanidade que podermos acrescentar ao nosso quotidiano é pouca para alimentar este corre-corre que é a nossa vida, e nos lembrarmos que afinal de contas estamos vivos - e bem vivos! - e prontos, se para isso tivermos disponibilidade, para apreciar e degustar as boas coisas da vida. Bom apetite!


Sonata de Outono








música que casa com uma imagem que casa com um estado de espírito. Não se pode pedir mais. [Música: "Elepbant Gun" dos Beirut]


Esquece o amor




Esquece o amor, os tempos não estão para isso. Vamos mas é festejar o anúncio da abertura do aeroporto internacional do Mindelo pela 57ª vez ou o novo plano para a recuperação da réplica da Torre de Belém. Será uma festa ainda maior do que as outras cinquenta e seis anteriores e na festa não se ama. Bebe-se, dança-se, grita-se, exalta-se, conforme os locais, havendo aqueles locais de cem escudos a entrada com direito a uma garrafada ou aqueles outros de cinco contos casal com direito a bar aberto num local tão inacessível que oitenta por cento do pessoal desiste de beber seja o que for a meio caminho. Vamos lá, vai-te habituando à ideia que vem aí o Reveillon e desta vez nem o banho na praia de catxor da marginal do Mindelo te vai salvar. Esquece o amor, que a tua festa pode muito bem ser invadida por um grupo de jovens em fúria de pedras na mão prontos para quebrar carros, vidros e até cabeças, nunca se pode adivinhar o que se passa nas mentes de um gang urbano. Esquece o amor, que as doenças andam por aí e mesmo que tenham sido anunciados projectos fantásticos e irresistíveis para acabar com o lixo em todo o arquipélago, parece que já vimos este filme, mas esquece, nem penses em começar a engendrar grandes ficções que isto não é o amor em tempos de cólera, isto não é um romance, é a vida real, vai mas é tratar da tua que eu trato da minha. Até porque daqui a nada temos eleições e é importante ouvir o que o Filú tem para dizer sobre o mosquito maldito ou o que o Veiga tem a falar sobre o seu desejo altruísta de voltar a ser o bigboss do pedaço e não podemos andar distraídos com coisas menores. Esquece o amor, que os tempos não estão para isso. E se mesmo assim insistires nessa ideia peregrina, prepara-te meu caro, que o pior ainda está para chegar.


Um Café Curto com Jumento





O blogue português Jumento, um dos parceiros aqui do Café Margoso e uma visita diária na minha rotina quotidiana, além de ser uma referência no universo blogueiro português tem sempre muita informação, crítica, imagens e convida à reflexão A notícia é que mudou de casa, ou seja, está com um novo visual e gostei francamente do resultado. Além de que este estabelecimento margoso aparece referenciado como sugestão da semana, logo no cabeçalho. Parabéns e longa vida na nova casa.


Mural Capitu



























No último Domingo, por motivos vários, não houve mural, no entanto mais vale tarde do que nunca. Este é sobre a série "Capitu", concebido a partir da obra de Machado de Assiz, uma revelação que foi-me dada a conhecer hoje mesmo. Enquanto os olhos de ressaca da bela Capitu são comparados aos de uma "cigana oblíqua e dissimulada", os de Escobar são descritos na obra de Machado de Assis como ora sendo "olhos policiais a que não escapava nada", ora "dulcíssimos". Paradoxal? Não se sabe, mas esta mini-série da Globo, filmada quase integralmente dentro de um antigo teatro, é das obras televisivas mais belas que a televisão brasileira já produziu até hoje. Com a direcção de Luiz Fernando Carvalho e um naipe de actores e actrizes novos e pouco conhecidos nos principais papeis. Absolutamente imprescindível.


Vejam um fantástico vídeo da série aqui.
E também o belíssimo sítio da Internet concebido para a série, aqui



Cafeína




"O belo tem somente um tipo; o feio tem mil. É que o belo, para falar humanamente, não é senão a forma considerada na sua mais absoluta simetria, na sua mais intima harmonia com a sua organização. Portanto, oferece-nos sempre um conjunto completo, mas restrito como nós. O que chamamos o feio, ao contrário, é um pormenor de um grande conjunto que nos escapa e que se harmoniza, não com o homem, mas com toda a criação. É por isso que ele nos apresenta, sem cessar, aspectos novos, mas incompletos."

Victor Hugo - poeta e dramaturgo francês



Café Matemático





E assim, como quem não quer a coisa, só agora reparei que este blogue atingiu as 200.000 páginas vistas. Obrigado a todos.



Café Visual





Para começar bem a semana...




Café com Clarice (mais um)





Ela, Clarice Lispector, escreveu assim:

"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos."

Definitivamente, tenho que inventar uma peça de teatro para colocar algo do que esta extraordinária escritora de dimensão planetária deixou escrito para deleito dos que por cá ficaram.


Declaração Cafeana




Sempre que vou para fora do país para alguma palestra ou conferência sobre o teatro crioulo ou sobre o festival Mindelact, acabo sempre, como é natural, por falar um pouco do país, da sua actualidade, situação geográfica e características sociais, havendo dois aspectos que sempre faço questão de referir: que aqui se tem a possibilidade de fazer usufruto de dois dos mais preciosos bens da modernidade: o tempo e o espaço.

O tempo porque não se vê ninguém, nem numa cidade já com uma dimensão razoável como é a Praia, a gastar 2, 3 ou 4 horas por dia em transportes, sejam eles públicos ou privados, como acontece em cidades gigantes como S. Paulo ou em cidades caóticas como Luanda. Estas 2, 3 ou 4 horas podem pois ser utilizadas noutras actividades produtivas, mas fundamentalmente naquilo que eu designaria em situações de afecto: a namorar, a estar com os filhos, a ler, a tomar banhos de mar, a dormir a sesta, no fundo, a viver um pouco melhor.

O que se diz do tempo é válido também para o espaço. Quando me falam da claustrofobia de ser-se um ilhéu, por ter mar a toda a volta, a minha resposta é: o mar não é uma prisão, é um espaço de liberdade. A possibilidade de sair-se da cidade e em poucos minutos estar-se isolado no Monte Verde ou num dos miradouros da fantástica estrada entre a Baía das Gatas e o Calhau, por exemplo, mostra o quanto podemos também nos considerar uns privilegiados do espaço, porque aqui se respira melhor. Sofucado sinto-me eu depois de uns dias em cidades grandes com um sistema de transportes péssimo, onde se demora uma eternidade para se chegar a um determinado lugar, entre empurrões, fumo, barulho de tubos de escape e esperas em paragens de autocarro. Além de que, uma eventual sensação de isolamento ficou bastante atenuada com o advento da Internet que nos liga ao mundo e ao que nele vai acontecendo.

Claro que sempre podemos falar da falta de cinemas, de museus ou de grandes eventos culturais, dos preços das comunicações, dos cortes de electricidade ou das epidemias que assolaram o arquipélago nos últimos tempos. Mas falando de dentro para fora é disso que me lembro: temos as maiores riquezas da modernidade e seria bom que pudéssemos mais vezes recordar a morna que nos diz que "no ka tem ôr no ka tem diamant, ma no tem ess paz di Deus, ke na mund ka tem." Dar valor ao que de bom existe por cá, também é uma forma de combater os males que nos assolam.


Sonata de Outono





Não é por nada, mas esta música [Construção, de Chico Buarque], composta há mais de 30 anos, está cada vez mais actual. E isso é muito assustador. Precisamos de novos parâmetros, de novas mentalidades, de uma outra forma de construir o nosso próprio futuro. Senão estamos mesmo fod...dos.






Bom fim-de-semana



Perguntas Cafeanas


E pela primeira vez, com um novo formato.




À melhor resposta, ofereço um café